quarta-feira, 13 de março de 2013

Algibeira

 
De passagem por Miranda do Douro, percorri as ruas do seu centro histórico e deparei com a loja de Maria Susana de Castro. Lá dentro, uma infinidade de peças de vestuário e objectos decorativos, todos confecionados com pardo e surrobeco. Não resisti à beleza deste acessório, popularmente conhecido por "algibeira", e ofereci um presente a mim mesma.
A história associada a estas algibeiras, enquanto elemento de indumentária feminina portuguesa, diz-nos que este magnifico acessório "permaneceu no trajo popular feminino de quase todas as regiões do país, como peça interior escondida dos olhares estranhos. Assim sucedeu, por exemplo, no trajo do Algarve, onde eram tradicionalmente designadas de "patronas".
Atadas à cintura, escondidas entre a saia de fora e a anágua, a mão passava através da "aberta" disfarçada entre as pregas da saia para nela se guardar o lenço ou o terço.
Do mesmo modo se conhece o seu uso no traje erudito. Durante séculos, os tecidos pesados e opacos ocultavam completamente a abertura nas saias, que permitia o acesso a estas pequenas bolsas. Com as profundas alterações operadas na moda no final do séc. XVIII, após a revolução francesa e especialmente durante o período império, dá-se o aparecimento das bolsas denominadas na época por "indispensáveis". Na verdade, as alterações no corte dos vestidos, então com a cintura alta, a par do uso generalizado de tecidos transparentes e leves, não permitia o disfarce destes acessórios. Apareceram então as bolsas suspensas dos cintos ou dos ombros, em tecidos coloridos, bordados e depois com armação em metal, que conduziram ao aparecimento das bolsas de mão.
Este acessório do trajo tomou na região do Minho, mais do que em qualquer outra zona do país, uma expressão muito curiosa. A sua forma, em coração estilizado, adaptou-se perfeitamente aos diferentes tipos de trajo de região, integrando-se tanto no trajo de trabalho, também designado por trajo de cotio, como no trajo de festa, lavradeira ou no trajo de exceção, mordoma e noiva.
Na sua confeção utilizavam-se tecidos, que se colocavam sobre moldes de papel previamente cortado, aproveitando-se os retalhos existentes. Depois de cozidos, eram decorados com a aplicação de fitas, de bordados e, por vezes, de botões, conforme a inspiração e os materiais disponíveis no momento. No forro utilizavam qualquer outro retalho de linho ou de algodão "riscado".
A função desta peça, que, em período menos recuado, se usava presa com fitas na cintura sobre o lado direito, escondida entre a saia e o avental, é ao mesmo tempo decorativa e funcional. Aí se guardava o lenço ou algo mais, o terço no "segredo", pequena abertura escondida sob a pala.
Quer no trajo erudito, quer no trajo tradicional, verificou-se a evolução deste acessório de caracter intimista para, pouco a pouco, se expor aos olhares de todos. Pendurada à cintura (no trajo tradicional) ou suspensa na mão (no trajo burguês), perdeu a sua simplicidade inicial, para se afirmar pelo exotismo da forma, a riqueza dos materiais ou pela decoração".
                       In Ponto de Cruz - a grande encruzilhada do imaginário

Sem comentários:

Enviar um comentário