quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cântaro de barro























"A primeira e mais valiosa referência a um púcaro ornamentado, que conheço, faz parte de um dos Diálogos de Francisco de Morais, autor do Palmeirim de Inglaterra. Uma mulher do povo, regateira na Ribeira de Lisboa, está disposta a casar com um seu antigo namorado, moço de estribeira, recém-chegado de Flandres. E gaba-lhe, retrospectivamente, mas com a mira no futuro, os encantos da sua casinha, no bairro marítimo de Alfama. Entre outros arranjos primorosos, louva a sua cantareira, vão de parede sem porta, em que era costume resguardar as indispensáveis vasilhas, a saber: uma talha grande, bojuda, para depósito de água; outra menor, para ser levada à fonte, acompanhada em geral do púcaro, preso na asa com um cordel; e, além disso, algum exemplar solto para regalo das visitas, emborcado sobre um pratel. Esse tal seria o de cunho artístico:
                        … que como determinava receber-vos por marido, me esmerava em tudo, tendo a minha cantareira alva como a neve, e talhas vermelhas como sangue, postas nela; [e] púcaro de Estremoz, pedrado por dentro, com serpinha no meio, feira do mesmo barro; e porque era antigo, dei-lhe uma cerada, parecia quase novo".
                                                                        Carolina Michaelis Vasconcellos. 1957. Algumas Palavras a Respeito de Púcaros de Portugal.

Sem comentários:

Enviar um comentário