sábado, 25 de dezembro de 2010

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


- No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina.
Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.
Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:
- Hoje é Natal!
A pouca distância de minha casa havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha eo chão de terra batida. O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado. Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.
E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureirae os seus filhos: a Rosa e o Domingos.
Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada, foi, um dia, transformada em pássara negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte D. Luis para o Rio Douro.
Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda, e um barqueiro que por ali andava viu-a, e remando, rapidamente, retioru-a do rio ainda com vida.
Da segunda vez ue se quis suicidar, estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma raja da empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrudilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito. 
Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu por duas vezes.
E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.
Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda de lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas "almas caridosas" lhe davam. Passavam muito mal, e quando se vive assim nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falarde prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristar a vida de quem tem pouquinho.
- Natal é um dia como os outros! - dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.
Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves galegas.
Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada por lhe gastarmos da mercearia.
Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.
Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal...
- E se fossemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os filhos para cearem com a gente? - propôs o meu pai.
A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca Adelaide Tintureira.
Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos e enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.
Sem saberem o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da cozinha.
Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes acesos de alegria. Eram os da Ti Adelaide Tintureira, que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.
Qunado acabámos de comer e de jogar o rapa a pinhões, vim cá fora, e pelo intervalo das folhas de uma laranjeira vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.
Agora, quando olho o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na Noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.
Qunado o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.
(in O Grande Livro de Natal)

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