sábado, 25 de dezembro de 2010

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:
- Té té té tzzzéééé!!! - E abriu a porta e as luzes.
Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhós, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.
A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava linguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.
Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e a um canto construiu a Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro porque, pensava ele, as árvores não se deviam abater.
Disse-me, uma vez:
- Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!
O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:
- Que engraçado, nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia.
Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!
Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.
E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocadinho azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.
Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.
Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções, como se fosse um rei.
Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.
Mas não, para mim , aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.
- Ah, já me esquecia, olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito de Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste! - pediu-me o avô Fernando.
O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.
Subi a correr as escadas quedavam para o meu quarto e senti que os bichos-carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:
- O que é que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira, ou uma história do meu avô?
Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse:
- Diz-me Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!
Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:
-Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!
Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:
- Então, vens ou não?!

Desci a escada a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.
Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal.
Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.
Desenrolou, desenrolou, até que... apareceu uma simples vela de cera branca.
- Oooohhhh! Uma vela! - disse de mim para mim, muito desiludido.
Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:
- Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para im estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua... está a tua... avó que Deus a tenha...
O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.
O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.
Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:
- Então, então, pai, hoje é Natal! - falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.
- Vamos à ceia! Disse, por fim, o avô ainda com a coragem engasgada.
Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.
O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.
Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizesse roer de inveja os colegas da minha rua.
O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.
Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre "cabisbundo" e "meditabaixo", ria-se, ria-se até mais não.
A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:
- Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês?
Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lentamente, ora para um lado, ora para outro.

- Vês alguma coisa?
- Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!
- Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a suadade do amor, da amizade e da partilha de coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal.
Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e que se cruzaram comigo ao longo de anos.
Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida, queres que te conte?
- Conta, avô, conta!
-Olha que é uma história verdadeira, mas triste!
- Não faz mal, mesmo assim conta!
A minha mãe e o meu pai aproximaram-se. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e começou com uma voz quente e pausada...

(continua no próximo post)

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