sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Na noite em que o espírito de Natal me visitou

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu.
- O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? - perguntava a mim próprio.
Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
- Ó avô, o que é que trazes?
- Tem calma, tem paciência que logo te mostro! - aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
- Anda lá, diz-me só a mim que eu juro que não digo a mais ninguém!
- As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia, não sejas chato!
- Diz-me, que eu prometo guardar segredo! - insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que, de lá de dentro, saísse qualquer coisa de mágico,: um avião que voasse a sério, um robot que me fizesse os deveres de casa, uma mota que fizesse vrrruuum, vrrruuummm, ou uma coisa assim... capaz de fazer pasmar os meus amigos.
Mas não.
Aparareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.
- Av^, que prenda me vais oferecer?
- Que prenda me vais dar a mim?
Não lhe respondi.
A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.
- E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?
- Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não nunca mais te calas. Isto é uma luz para o Natal!
- É de ligar à electricidade? - É de acender? - É uma estrela para pôr no Presépio? - perguntei, agitado.
- Não. Isto é o Espírito do Natal! - exclamou o meu avô com mistério na voz.
- Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar sai um génio que faz tudo o que agente quer? Ó avô, és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!
Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe.
- Venham para a mesa!
O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar, com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos. O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

(continua amanhã)

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