sábado, 25 de dezembro de 2010

Dia de Natal


«O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto».
(José Saramago. 1999. O Evangelho Segundo Jesus Cristo.)

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


- No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina.
Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.
Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:
- Hoje é Natal!
A pouca distância de minha casa havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha eo chão de terra batida. O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado. Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.
E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureirae os seus filhos: a Rosa e o Domingos.
Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada, foi, um dia, transformada em pássara negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte D. Luis para o Rio Douro.
Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda, e um barqueiro que por ali andava viu-a, e remando, rapidamente, retioru-a do rio ainda com vida.
Da segunda vez ue se quis suicidar, estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma raja da empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrudilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito. 
Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu por duas vezes.
E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.
Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda de lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas "almas caridosas" lhe davam. Passavam muito mal, e quando se vive assim nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falarde prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristar a vida de quem tem pouquinho.
- Natal é um dia como os outros! - dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.
Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves galegas.
Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada por lhe gastarmos da mercearia.
Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.
Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal...
- E se fossemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os filhos para cearem com a gente? - propôs o meu pai.
A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca Adelaide Tintureira.
Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos e enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.
Sem saberem o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da cozinha.
Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes acesos de alegria. Eram os da Ti Adelaide Tintureira, que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.
Qunado acabámos de comer e de jogar o rapa a pinhões, vim cá fora, e pelo intervalo das folhas de uma laranjeira vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.
Agora, quando olho o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na Noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.
Qunado o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.
(in O Grande Livro de Natal)

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:
- Té té té tzzzéééé!!! - E abriu a porta e as luzes.
Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhós, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.
A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava linguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.
Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e a um canto construiu a Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro porque, pensava ele, as árvores não se deviam abater.
Disse-me, uma vez:
- Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!
O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:
- Que engraçado, nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia.
Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!
Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.
E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocadinho azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.
Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.
Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções, como se fosse um rei.
Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.
Mas não, para mim , aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.
- Ah, já me esquecia, olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito de Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste! - pediu-me o avô Fernando.
O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.
Subi a correr as escadas quedavam para o meu quarto e senti que os bichos-carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:
- O que é que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira, ou uma história do meu avô?
Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse:
- Diz-me Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!
Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:
-Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!
Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:
- Então, vens ou não?!

Desci a escada a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.
Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal.
Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.
Desenrolou, desenrolou, até que... apareceu uma simples vela de cera branca.
- Oooohhhh! Uma vela! - disse de mim para mim, muito desiludido.
Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:
- Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para im estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua... está a tua... avó que Deus a tenha...
O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.
O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.
Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:
- Então, então, pai, hoje é Natal! - falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.
- Vamos à ceia! Disse, por fim, o avô ainda com a coragem engasgada.
Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.
O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.
Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizesse roer de inveja os colegas da minha rua.
O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.
Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre "cabisbundo" e "meditabaixo", ria-se, ria-se até mais não.
A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:
- Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês?
Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lentamente, ora para um lado, ora para outro.

- Vês alguma coisa?
- Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!
- Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a suadade do amor, da amizade e da partilha de coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal.
Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e que se cruzaram comigo ao longo de anos.
Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida, queres que te conte?
- Conta, avô, conta!
-Olha que é uma história verdadeira, mas triste!
- Não faz mal, mesmo assim conta!
A minha mãe e o meu pai aproximaram-se. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e começou com uma voz quente e pausada...

(continua no próximo post)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Na noite em que o espírito de Natal me visitou

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu.
- O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? - perguntava a mim próprio.
Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
- Ó avô, o que é que trazes?
- Tem calma, tem paciência que logo te mostro! - aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
- Anda lá, diz-me só a mim que eu juro que não digo a mais ninguém!
- As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia, não sejas chato!
- Diz-me, que eu prometo guardar segredo! - insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que, de lá de dentro, saísse qualquer coisa de mágico,: um avião que voasse a sério, um robot que me fizesse os deveres de casa, uma mota que fizesse vrrruuum, vrrruuummm, ou uma coisa assim... capaz de fazer pasmar os meus amigos.
Mas não.
Aparareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.
- Av^, que prenda me vais oferecer?
- Que prenda me vais dar a mim?
Não lhe respondi.
A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.
- E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?
- Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não nunca mais te calas. Isto é uma luz para o Natal!
- É de ligar à electricidade? - É de acender? - É uma estrela para pôr no Presépio? - perguntei, agitado.
- Não. Isto é o Espírito do Natal! - exclamou o meu avô com mistério na voz.
- Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar sai um génio que faz tudo o que agente quer? Ó avô, és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!
Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe.
- Venham para a mesa!
O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar, com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos. O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

(continua amanhã)