sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Oleiro


Durante o trabalho é raro o oleiro que canta. Pode-se quási dizer que o oleiro não canta.
É porque para a obra que realiza não necessita do compasso alegre da cantiga que dê ao seu espírito vivacidade e inspiração.
A infusa ou a cantarinha que nasce do bloco de barro e se espreguiça por entre os dedos tomando forma, é já composição melódica de ritmos simples que de harmonia em harmonia surge como a paráfrase musical duma combinação de notas consonantes. Assim o oleiro atento à obra que vai realizando com pedaços de poesia ingénua da alma, consegue orquestrar a melopeia da forma no que a própria forma tem de mais eurítmico e canoro.
E não canta, porque a obra que realiza é já em si um cântico suave…  
(Ribeiro, Emanuel. 1927)

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