segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Feira das Mercês


No post anterior, quando referi o autor Armando Lucena reportava-me, em concreto, a um texto cujo título é A Feira das Mercês, a «tradicional» feira das Mercês (que não aquela a que aludi), onde fui encontrar referências preciosas à loiça de olaria produzida e vendida na época, e que passo a transcrever na íntegra. Desfrutem.

Muitas vezes, ainda há calor naqueles últimos dias de Outubro, dourado e transparente, de atmosfera límpida, cristalina e suave que nos prende com infinito prazer às doçuras da Natureza. Os rigores do estio deixaram-nos abatidos e com essa fadiga muito deve ter perdido o nosso culto pelo ar livre. De modo que bastante grato é à nossa sensibilidade o primeiro ensejo que nos leva ao campo para ali gozarmos a paisagem e a temperatura amena da quadra outoniça do ano.
Logo de manhã, mal o sol desponta no azul do céu, começa a enorme romagem de forasteiros, cruzando os caminhos e veredas em direcção às Mercês, linda povoação dispersa por uma encosta acima, fronteiriça à serra de Sintra, e onde, desde longa data, se realiza anualmente a tradicional feira das Mercês.
O lugar é, por si, convidativo e pitoresco e em tudo propício à reunião do povo que daquelas redondezas ali acode para folgar e fazer algumas transacções de frutas, hortaliças, gado miúdo, louçaria barata e característica da região, etc., constituem, por assim dizer, a justificação daquele pequeno comércio que, apesar disso, muita gente nele se vê interessada.
Mas deixemos o fundo económico da questão, com seus lucros ou proveito especiais, e olhemos o acto pelo lado panorâmico, pelo sabor regional que nos oferece todo aquele divertido aglomerado, onde há gente de todas as categorias, de todas as idades e lugares.
Da estação do caminho de ferro, lá acima, ao alto da encosta, move-se a grande massa de gente, contornando os acidentes do terreno, fértil e muito variado de vegetação. Há em todos, naquela subida custosa e ainda bastante longa, um arfar ansioso de quem luta com a ladeira. O final vem, felizmente, perto e sólidas compensações esperam o feirante ou simples romeiro, que vai aguçando o apetite para a saborosa petisqueira, devorada à porta das barracas de lona ou à sombra dos plátanos gigantescos o planalto onde a romaria se realiza.
A paisagem é um deslumbramento de frescura sob a poeira doirado do sol, já nessa altura a pino, sobre a cabeça dos feirantes. Alinham-se as barracas de pano, improvisadas de véspera, com panos toscos de costaneiras velhas no interior, que o povinho toma de assalto para que aquela refeição sem fórmulas, primitivas, pagã, quási bárbara, mesmo. Para muitos, o espectáculo termina ali e talvez não tenha começado mais longe. O «prato do dia», se assim podemos dizer, é o belo leitão assado, que naquela manhã se imolou expressamente para repasto dos forasteiros. Por pertencer à tradição, ou porque naquela época outro petisco melhor se não arranja, o bacorozinho assado no espeto é, na opinião daquela gente, uma delícia incomparável que ninguém dispensa naqueles excepcionais dias de festa.
O dia vai correndo num rumor confuso de vozes e de som das cornetas de barro, enquanto a marcha do Sol, curva e vagarosa, nos oferece novos panoramas pelo vale abaixo, até Rio de Mouro, naquele momento vazio e silencioso pela debandada do seu povo, agora a contas com o Diónisos das redondezas, discutindo a vantagem e a aplicação das uvas. Os postos de beberagem são numerosos, como é de supor; um barril ajeitado sobre duas cruzetas de Santo André, duas tábuas de pinho à guisa de banco e um canjirão vidrado das fábricas do Sobreiro quanto basta àquelas locandas de improviso. Próximo uma frigideira de barro chia, sobre o fogo, com o ruído particular das frituras, aliciando o paladar dos mais enfastiados.
- Cá está o rico leitão assado, meus senhores!
E ninguém lhe resiste.
Só depois se trata de «enfeitar».
As louças abundam: a de esmalte, a de folha, a de barro, principalmente. Filas completas cheias de potes, bilhas, moringues, canjirões a almofias, brilhando ao sol, com seu vidrado amarelo, castanho ou verde. Formas clássicas das olarias vizinhas de Mafra, felizmente, por enquanto puras de expressão, castiças de forma, atraentes pela graça ingénua que é a maior virtude dos seus oleiros. Já um dia as quiseram «modernizar», perverter com certos conselhos de indústria alheia; mas alguma glória nos cabe de termos conseguido evitar tamanha tristeza. Fomos ouvidos com muita inteligência e ponderação, e assim podemos ainda admirar-lhe os antigos moldes regionais que, de longa data, foram característicos das velhas rodas do Sobreiro, da Achada, dos Salgados e de muitas outras, daquilo a que poderíamos, com justa razão, chamar o Bairro Cerâmico do concelho de Mafra.

(amanhã será colocado o restante texto)

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