terça-feira, 7 de setembro de 2010

Feira das Mercês (cont.)


Cada um leva um exemplar daqueles barros tão úteis como expressivos. Há quem de lá traga verdadeiras colecções. Qual de nós o não teria feito já também?
Este género de louça é evocador, pela forma e pela graça, como as flores o são também pela vida e pelo perfume.
Das viagens, às vezes, nada mais resta do que isso. Quem passa por Barcelos, por Chaves, por Tondela, por Bisalhães, pelas Caldas ou por Estremoz, nunca deixa de trazer consigo uma peça, ainda que bem pequenina, da louça que por lá tenha visto. Atracção de quem viaja e prazer de quem dela se serve.
Foi por isso que a nossa Infanta D. Isabel, casada com D. Carlos V, nunca dispensava da sua mesa os encantadores pucarinhos de barro que se dizia serem de Montemor.
Aparte outro sector da feira, talvez mais rendoso e fundamental, à louça, ao leitão e às maçãs reinetas, cabem as honras plásticas daquele ajuntamento vivo que é a Feira das Mercês.
Mas não é tudo. O amor tem naquele lugar papel importante e privilegiado na história da ternura popular. É nas Mercês que existe o famoso Muro do Derrete, parada onde se fazem verdadeiros torneios amorosos da região. Rapariga casadoira vai postar-se ali, fresca e vistosa, girando de um lado para o outro, como fogaça em arraiais em arraiais de província. Há sempre quem olhe, há sempre quem goste e há sempre quem queira. E por isso raro é que dali não saia casório certo.
O muro não é apenas um símbolo literário dos folcloristas; existe, não de carne e osso, como se diria das cachopas que o embelezam, mas de pedra e cal, no períbolo da capelinha. No seu parapeito lá estão as moçoilas, rubras de entusiasmo e ansiosas pela fala dos seus conversados, porque dela depende, afinal, a última palavra do seu destino.
Em roda, a feira continua; e, porque o entardecer se aproxima, o Sol doira mais a fronde dos pinheiros e alonga para o Nascente a sombra do arvoredo. São horas de retirada. Enchem-se, de novo, os caminhos daquele povoléu exausto que apressadamente segue em conquista dum lugarzinho no comboio, lá ao fundo, na estação das Mercês, prestes a regressar à cidade.
Em pouco tempo a encosta fica vazia.
A sombra desce mais, atinge o solo, amacia-o e confunde-o com o silêncio e tudo esquece no dia seguinte. Apenas os medronheiros do caminho, vivos, rutilantes como gotas de coral, nos lembram o sorriso fresco e sadio com que as cachopas do alto do famoso muro marcam a nota mais bela e expressiva da tradicional feira das Mercês.

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