segunda-feira, 26 de julho de 2010

Estranho Quotidiano



Houve um tempo em que se acreditava no futuro. Pensava-se que a ciência e a tecnologia resolveriam os mais graves problemas humanos e que haveria inteligência para distribuir bem os recursos. Não se imaginava que a tecnologia agravasse as desigualdades e que o desenvolvimento tornasse o planeta inabitável.

Houve um tempo em que as pessoas não estavam à venda. O seu valor não se contabilizava em dinheiro e ninguém procurava saber o preço que tinha. Não se imaginava que um bom futebolista pudesse valer por cem gestores e que um gestor valesse por cem empregados do Continente.

Houve um tempo de pessoas solidárias. Confiavam umas nas outras, gostavam de cooperar em trabalhos colectivos, prestavam socorro a quem caísse à sua frente. A indiferença perante o sofrimento alheio não era bem vista.

Houve um tempo em que os filhos respeitavam os pais, embora discordassem deles. Quando se lutava dentro das famílias, grupos e comunidades, era por confronto de ideias e não por inveja de posições.
Houve um tempo em que se respeitava a dignidade e a privacidade. O "Big Brother" não era um espectáculo oferecido às multidões, mas a antevisão de um pesadelo. Espreitar pelo buraco da fechadura ou interceptar conversas privadas era coisa de gente inferior que falava da vida alheia psra esquecer a triste vida que levava, e não era mester de magistrados ou jornalistas.
(J.L.Pio Abreu. in Jornal Destak. 9/Abril/2010)

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