sábado, 25 de dezembro de 2010

Dia de Natal


«O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto».
(José Saramago. 1999. O Evangelho Segundo Jesus Cristo.)

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


- No tempo em que o Natal custava a chegar, vivia eu numa casa pequenina.
Eu era pobre e não tinha brinquedos, mas não me importava. Bastava o cheiro que andava pelas ruas e pelos caminhos a fazer miminhos de fraternidade no coração das pessoas.
Era por isso que, quando tinha a tua idade, na véspera de Natal, ao passar pelas outras pessoas, dizia, cheio de alegria:
- Hoje é Natal!
A pouca distância de minha casa havia uma outra, que não era bem casa. As paredes eram de chapa velha eo chão de terra batida. O vento entrava por tudo o que era frincha e o frio estava ali plantado. Uma fogueira fazia de fogão e a única cama que havia era feita de paus de pinheiro, ainda por descascar.
E nessa casa que não era bem casa, tão pequenininha e tão pobre de tudo, morava a Ti Adelaide Tintureirae os seus filhos: a Rosa e o Domingos.
Esta mulher de pele enrugada, de olhos verdes e vida amargurada, foi, um dia, transformada em pássara negro. Por duas vezes se quis matar, atirando-se da ponte D. Luis para o Rio Douro.
Da primeira vez, as saias largas que usava amorteceram a queda, e um barqueiro que por ali andava viu-a, e remando, rapidamente, retioru-a do rio ainda com vida.
Da segunda vez ue se quis suicidar, estava muito vento. Ao atirar-se da ponte, uma raja da empurrou-a contra os fios de electricidade e neles ficou enrudilhada. Os bombeiros tiraram-na com vida, apenas ficando magoada no peito. 
Disseram as velhas da aldeia que tudo isso aconteceu porque o Anjo da Guarda da Ti Adelaide Tintureira, cansado de a proteger durante uma vida cheia de aflições, adormeceu por duas vezes.
E, nessas duas vezes, a Morte, ao ver aquela mulher de olhos tristes, transformada em ave negra, não a quis e devolveu-a, sã e salva, para viver o resto do seu destino.
Naquele tempo, a Ti Adelaide Tintureira e os filhos viviam da venda de lenha, apanhada nos pinhais, e de pequenos serviços que lhe encomendavam. Ela e os filhos vestiam do que algumas "almas caridosas" lhe davam. Passavam muito mal, e quando se vive assim nem é bom sentir o cheiro do Natal nem ouvir falarde prendas nem de rabanadas. Isso só serve para entristar a vida de quem tem pouquinho.
- Natal é um dia como os outros! - dizia a Ti Adelaide Tintureira para tentar convencer os filhos a não olharem para as roupas novas que os outros meninos vestiriam no dia seguinte.
Na noite de Natal, em cima da nossa pequena mesa, fumegava a travessa de bacalhau cozido com batatas e couves galegas.
Nesse ano, para além das rabanadas, havia um bocadinho de queijo, uns pastéis comprados no Porto e uma garrafa de vinho fino, oferecida pelo Ti Zé Estureta, como consoada por lhe gastarmos da mercearia.
Para operários de vida dura, aquela ceia de Natal era quase um banquete de rei.
Quando íamos iniciar a refeição da noite de Natal...
- E se fossemos chamar a Ti Adelaide Tintureira e os filhos para cearem com a gente? - propôs o meu pai.
A minha mãe disse que sim e, momentos depois, eu batia à porta da barraca Adelaide Tintureira.
Lá dentro, a chama da candeia de azeite furava a escuridão e os olhos da Rosa e do Domingos e enchiam de tristeza aquela noite, que não era bem igual às outras.
Sem saberem o que dizer nem fazer, seguiram-me até à porta da cozinha.
Disseram boa noite com voz sumida e, quando se sentaram à volta da mesa daquela família de pobres operários, que era a minha, dei com uns olhos verdes acesos de alegria. Eram os da Ti Adelaide Tintureira, que pagava aquele gesto bonito com um olhar que já não usava há muito tempo: um olhar de felicidade.
Qunado acabámos de comer e de jogar o rapa a pinhões, vim cá fora, e pelo intervalo das folhas de uma laranjeira vi, lá longe, o brilho de uma estrelinha que mais ninguém viu.
Agora, quando olho o céu, lembro-me dos olhos acesos da Ti Adelaide Tintureira, que foram morar para as estrelas e que me aparecem, na Noite de Natal, para me recordarem dos bons sentimentos que ainda não foram apagados do coração das pessoas.
Qunado o avô Fernando se calou, olhei para a chama da vela e senti que o Espírito do Natal estava ali e me tinha visitado naquela noite.
(in O Grande Livro de Natal)

Na noite em que o espírito de Natal me visitou (cont.)


As luzes estavam apagadas e a porta fechada. Quando íamos para entrar, o meu pai, muito teatreiro e eufórico, fez:
- Té té té tzzzéééé!!! - E abriu a porta e as luzes.
Senti uma baforada quente e fui abraçado por um cheirinho a rabanadas, a sonhos, a filhós, a aletria com desenhos de canela e a bilharacos, que era um doce que o meu avô apreciava muito.
A iluminação da sala estava um espanto, a mesa um espectáculo, a lareira soltava linguas de fogo e a música ambiente eram as vozes de anjos de um CD que a minha mãe comprara de propósito para aquela noite.
Por cima da lareira, o meu pai pôs o presépio e a um canto construiu a Árvore de Natal, apenas com ramos de pinheiro porque, pensava ele, as árvores não se deviam abater.
Disse-me, uma vez:
- Se um dia tiveres de cortar uma árvore, deves pedir-lhe desculpa, ouviste? Uma árvore é um ser vivo!
O meu avô dirigiu-se ao presépio, mirou-o e remirou-o e, por fim, disse:
- Que engraçado, nunca vi um presépio assim: o Menino Jesus está ao colo da mãe e a manjedoura vazia.
Ó Castro, dou-te os meus parabéns, o presépio está muito bonito!
Os olhos do meu pai brilharam com o elogio.
E sabem porquê? É que o meu avô achava que o meu pai era um bocadinho azelhote para fazer coisas e habilidades com as mãos.
Era a primeira vez que ele vinha a nossa casa, depois do segundo casamento da minha mãe.
Para o impressionar, os meus pais receberam-no com mimos e atenções, como se fosse um rei.
Por causa disso, eu comecei a ficar um bocado chateado. Até parecia que os meus pais, naquela noite, decidiram riscar-me do mapa das suas atenções.
Mas não, para mim , aquele Natal não foi só uma noite de paz, foi uma noite de pazes.
- Ah, já me esquecia, olha, Mário, vai à minha mala buscar o Espírito de Natal, mas trá-lo com cuidado, não lhe mexas, ouviste! - pediu-me o avô Fernando.
O meu pai e a minha mãe cruzaram os olhos de interrogação, ao saber que o meu avô tinha trazido para casa um espírito.
Subi a correr as escadas quedavam para o meu quarto e senti que os bichos-carpinteiros da curiosidade me atacavam com perguntas:
- O que é que estaria dentro daquele rolo de papel prateado? Seria mesmo um espírito? E os espíritos têm a forma de um charuto comprido? Seria uma brincadeira, ou uma história do meu avô?
Pelo sim e pelo não, passei os dedos, ao de leve, pelo rolo.E se o tal espírito saísse do tubo e me falasse:
- Diz-me Mário, meu amo, que desejas? Diz-me, que a tua vontade será satisfeita!
Se isso me acontecesse, o que é que eu desejaria? Sei lá, se não ficasse atrapalhado, era capaz de pedir:
-Ó alma boa, ó espírito da luz, quero que arranjes alguém que me faça os deveres de casa, quero um avião a sério que aterre no meu pátio e quero uma moto a motor!
Estava a minha imaginação com gás na tábua quando ouvi a voz do meu avô:
- Então, vens ou não?!

Desci a escada a correr e entreguei-lhe o rolo de papel prateado. Fiquei à espera, para ver o que de lá saía.
Era agora, era agora que eu ia conhecer o tal Espírito do Natal.
Como o avô desembrulhou o rolo com muito cuidadinho, eu comecei a acreditar que, se calhar, havia ali mesmo qualquer mistério.
Desenrolou, desenrolou, até que... apareceu uma simples vela de cera branca.
- Oooohhhh! Uma vela! - disse de mim para mim, muito desiludido.
Embora a sala estivesse inundada de luz, o avô Fernando riscou um fósforo, pediu à minha mãe um castiçal, acendeu a vela colocou-a no centro da mesa. Depois, disse:
- Na chama desta vela mora o Espírito do Natal! Nesta noite, nesta mesa e nesta chama, para im estarão presentes todos os nossos antepassados, todas as nossas recordações e todas as pessoas de quem gostamos. Está o meu pai e a minha mãe, está a tua... está a tua... avó que Deus a tenha...
O meu avô parou de falar e, em vez de palavras, saíram apenas lágrimas grossas que escorreram pela cara abaixo.
O silêncio que se fez foi tão grande que ficámos todos muito encolhidos, sem saber o que dizer.
Quem nos salvou do peso do silêncio e das lágrimas foi a minha mãe:
- Então, então, pai, hoje é Natal! - falou baixinho a minha mãe, misturando a fala com um beijo.
- Vamos à ceia! Disse, por fim, o avô ainda com a coragem engasgada.
Depois, comemos, rimos, jogámos ao rapa, ao tira, ao deixa e ao põe até que chegou a hora da distribuição das prendas.
O meu pai deu-me um livro, a minha mãe uma camisa aos quadrados e o meu avô umas grossas meias de lã.
Eu fiquei muito desconsolado porque esperava um brinquedo de espanto, daqueles que fizesse roer de inveja os colegas da minha rua.
O meu avô andava sempre com os pés frios e trouxe meias de lã porque, se calhar, pensou que sofríamos todos do mesmo mal.
Estava tudo a correr bem. Até o meu pai, que andava quase sempre "cabisbundo" e "meditabaixo", ria-se, ria-se até mais não.
A certa altura, o avô chamou-me para a sua beira e disse-me:
- Olha para a luz da vela. Fixa o Espírito do Natal! O que vês?
Eu lá olhei, mas o que via era que a chama se inclinava, lentamente, ora para um lado, ora para outro.

- Vês alguma coisa?
- Não vejo nada. Só a chama a dizer não, devagarinho!
- Para mim, na Noite de Natal, esta chama significa tudo o que o ser humano tem de bom dentro de si: a suadade do amor, da amizade e da partilha de coisas. É por isso que lhe chamo o Espírito do Natal.
Nesta noite, quando fixo a luz da vela, diante dos meus olhos passam, como se fosse em cinema, histórias e vidas das pessoas que amei e que se cruzaram comigo ao longo de anos.
Estou agora a olhar para ela e estou a lembrar-me do Natal mais lindo que eu tive em toda a minha vida, queres que te conte?
- Conta, avô, conta!
-Olha que é uma história verdadeira, mas triste!
- Não faz mal, mesmo assim conta!
A minha mãe e o meu pai aproximaram-se. O avô fixou os seus olhos de formiga na chama da vela e começou com uma voz quente e pausada...

(continua no próximo post)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Na noite em que o espírito de Natal me visitou

O avô Fernando chegou de longe com uma mala muito pesada. Ajudei-o a levá-la para o meu quarto e não o larguei mais, enquanto não a abriu.
- O que traria ele dentro daquela mala tão grande? Prendas de Natal? Surpresas? Brinquedos? Livros? - perguntava a mim próprio.
Mortinho de curiosidade, andei à sua volta como uma mosca, a zumbir perguntas.
- Ó avô, o que é que trazes?
- Tem calma, tem paciência que logo te mostro! - aconselhou, ainda com a voz ofegante por ter carregado comigo aquela mala.
- Anda lá, diz-me só a mim que eu juro que não digo a mais ninguém!
- As prendas e as surpresas só se mostram logo, depois da ceia, não sejas chato!
- Diz-me, que eu prometo guardar segredo! - insisti.
Como tinha de entregar à minha mãe uns produtos para a ceia, que tinha trazido da sua terra, começou a abrir a mala devagarinho e eu fiquei à espera que, de lá de dentro, saísse qualquer coisa de mágico,: um avião que voasse a sério, um robot que me fizesse os deveres de casa, uma mota que fizesse vrrruuum, vrrruuummm, ou uma coisa assim... capaz de fazer pasmar os meus amigos.
Mas não.
Aparareceram, entre a escova de dentes, a gilete, o pincel da barba, uma toalha de rosto e o pijama do meu avô, vários embrulhinhos amarrados com fitas coloridas, uma garrafa de azeite, um queijo, uma broa de Avintes, um frasco de azeitonas e uma garrafa que parecia ter dentro água amarela.
- Av^, que prenda me vais oferecer?
- Que prenda me vais dar a mim?
Não lhe respondi.
A um canto, estava um rolo envolvido em papel azul-marinho, prateado.
- E isso, o que é? É um telescópio? É um caleidoscópio?
- Olha que tu és muito pegajoso! Está bem, pronto! Eu digo-te, se não nunca mais te calas. Isto é uma luz para o Natal!
- É de ligar à electricidade? - É de acender? - É uma estrela para pôr no Presépio? - perguntei, agitado.
- Não. Isto é o Espírito do Natal! - exclamou o meu avô com mistério na voz.
- Espírito? Igual àquele da Lâmpada do Aladino? Se esfregar sai um génio que faz tudo o que agente quer? Ó avô, és mesmo fixório! Mostra, avô, mostra!
Para não me aturar mais, ele ia a desembrulhar o rolo de papel prateado quando foi salvo da minha curiosidade pelo chamamento da minha mãe.
- Venham para a mesa!
O meu avô, ainda a arfar da viagem, desceu devagar, com a mão no corrimão, e eu acompanhei-lhe os passos. O meu pai fechou-se na sala de jantar e, querendo fazer um bonito, não nos deixou entrar na sala, onde a mesa já estava posta para a ceia.

(continua amanhã)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Gato preto

Há dias precisei de ir ao Museu de História Natural, de Sintra, para fazer recolha de informação necessária à elaboração de um trabalho académico. Aproveitei a ocasião e percorri, a pé, boa parte da zona do centro histórico da vila. A manhã, apesar de invernosa, tinha o céu descoberto. Com a chegada da estação fria as árvores adquiriram tons de ouro e cobre. Algumas estão já quase despidas, mas os plátanos ainda conservam a sua folhagem e mostram todos os matizes da cor verde e cobre. Nas sebes e nas bermas dos caminhos adensam-se os tons dourados e vermelho fogo das plantas trepadeiras. No ar respirava-se o suave perfume das folhas caídas.
Sobre um muro velho, um gato esperava o sol.

domingo, 21 de novembro de 2010

Portugal

Portugal ao alto! Portugal em frente!

domingo, 17 de outubro de 2010

A olaria



Os primeiros objectos de barro foram modelados exclusivamente pela mão do homem. Nessa alura, o oleiro não dispunha ainda de quaisquer instrumentos de trabalho. Antes da roda de oleiro ter sido inventada na Mesopotâmia (final do quarto milénio A.C.), havia já oleiros que sabiam tirar o melhor partido das propriedades da sua matéria-prima de eleição, o barro. Os primeiros objectos de cerâmica cozida datam de há 10 a 12 000 anos.
Esses primeiros oleiros moldavam o barro em formas livres ou fabricavam os objectos por sobreposição de pequenos rolos de barro, uma técnica que ainda hoje é utilizada em diferentes pontos do globo, nomeadamente no território do continente africano.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Oleiro


Durante o trabalho é raro o oleiro que canta. Pode-se quási dizer que o oleiro não canta.
É porque para a obra que realiza não necessita do compasso alegre da cantiga que dê ao seu espírito vivacidade e inspiração.
A infusa ou a cantarinha que nasce do bloco de barro e se espreguiça por entre os dedos tomando forma, é já composição melódica de ritmos simples que de harmonia em harmonia surge como a paráfrase musical duma combinação de notas consonantes. Assim o oleiro atento à obra que vai realizando com pedaços de poesia ingénua da alma, consegue orquestrar a melopeia da forma no que a própria forma tem de mais eurítmico e canoro.
E não canta, porque a obra que realiza é já em si um cântico suave…  
(Ribeiro, Emanuel. 1927)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Viva a República


 
 Passei pela Cordoaria Nacional (Lisboa) para ver "Viva a República".
Excelente exposição, extraordinário trabalho de investigação. A visita é imperdível.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LEGO: Mini Box 4

Ontem, mais uma vez constatei que nós portugueses teimamos em não ser amigos de nós próprios. Nas chamadas "grandes superfícies" encontramos à venda variadíssimas marcas de lápis, é um facto, mas da única marca de fabrico nacional nem rasto. Senhores comerciantes, a Viarco é nacional e é BOA!
Serenei os ânimos com a visita à exposição da Lego (El Corte Ingles - Lisboa) e com o presente maravilhoso que foi oferecido pelo meu amigo Alex.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Do pó se fez barro, do barro se faz loiça

Têm sido sem dúvida demasiadamente surpreendentes e enriquecedoras as experiências vividas ao longo do trabalho de pequisa que tenho vindo a realizar sobre a produção de olaria em Portugal. Momentos tão cheios, tão cheios que é impossivel ficar com todos eles só para mim. Por isso decidi trazer para este espaço alguns desses momentos, histórias, testemunhos..., partilhá-los com mais alguém, e tentar fazer deste blog um elo de ligação com as questões, com as pessoas, que de forma directa (ou não) estão relacionadas com estas coisas do barro.

Michelle Picolli



As mulheres são românticas, os homens solitários. E ambos partilham (por vezes) a solidão e o amor.
(Michelle Picolli)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Domingo de Outono




Hoje esteve um dia quente e descoberto. Visitei o Museu da Pólvora Negra, que fica na antiga Fábrica da Pólvora de Barcarena, e caminhei pelo parque longo e verdejante, mas onde quase não restam flores. Colhi uma folha de hera linda.
De regresso, ainda tive tempo para parar junto da azinheira onde de vez em quando desaparecem umas bolotas... trouxe algumas para pintar em casa.

sábado, 9 de outubro de 2010

Pequeno tributo a John Lennon


No dia em que eu celebrei 13 anos, John Lennon completou 40. Apesar da minha tenra idade, recordo que já olhava Lennon como uma referência, pela visão que tinha do mundo e como o preocupavam as questões sociais; como sonhava; como escrevia; como pensava; pela música que fazia.
Hoje, se fosse vivo, o eterno sonhador verificaria que tem vencido a força. A força das armas, dos canhões, dos média, do conluio internacional, da Igreja, do dinheiro. Já não há mais decisões locais. Tudo agora é planetário, desde a indústria de automóveis ao fabrico de revoltas e repressões. (Miguel Torga)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

À procura de Wally



Olhando para este emaranhado de cores lembrei-me daquelas imagens "labirinticas" que nos desafiam a descobrir onde está o Wally. Se tivesse que dar um título a esta obra essa seria a minha escolha.
A escultura integra a exposição A culpa não é minha e está patente no CCB.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Cavalo lusitano




De passagem por terras ribatejanas, foi-me apresentada uma criatura absolutamente fascinante: a Segurelha, uma égua puro sangue lusitano. Lindíssima!
As origens desta raça de cavalo são incertas mas não devem diferir muito das do Andaluz, de resto, a que se assemelha em alguns aspectos. No passado foi utilizado para fins militares e como cavalo de carruagem. Actualmente, é ainda possivel encontrar estes cavalos no auxílio de desempenho de trabalhos agrícolas (nomeadamente na região do Ribatejo), mas a maior relevância parece estar no seu uso nas touradas.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Lisboa comemora o centenário da República


Hoje, houve muita animação nas ruas de Lisboa.


De passagem pela zona de Belém, tentei visitar a exposição patente nos jardins da residência oficial do Presidente da República, mas desisti imediatamente da ideia ao avistar a fila interminável de gente que esperava e desesperava pela sua vez de entrar (até às 16:00 já tinham entrado mais de 10 mil pessoas). Ainda tentei a minha sorte junto da entrada do Museu da Presidência da República, mas o cenário era em tudo idêntico.
Tracei itinerário para outras paragens: a Baixa Pombalina. Desci à Praça do Comércio e espreitei outro evento muito interessante: Corpo - Estado, Medicina e Sociedade no tempo da I República. Bom trabalho de pesquisa. Vale a pena visitar.

A implantação da República em Portugal comemora 100 anos


Com a implantação da República pretendeu-se que os cidadãos fossem homens livres, para que, sem dependerem de ninguém e voluntariamente, decidissem pôr o serviço da comunidade acima de qualquer outro interesse. Na República, o individuo livre seria a matéria-prima para a construção de uma entidade colectiva – a nação republicana –, que passava a ter prioridade sobre esse indivíduo.
Mattoso, José. 1994. “A cultura republicana”, in História de Portugal. (p.401)

domingo, 3 de outubro de 2010

Outubro com cheiro a outono



Frutos do castanheiro (Castanea vesca).

Outubro é o oitavo mês do antigo calendário romano. Os eslavos chamam-lhe "Mês amarelo" devido à cor que as folhas adquirem; os anglo-saxões conheciam-no por "fylleth" de Inverno, porque consideravam que nesta lua-cheia (fylleth) começava a estação mais fria.
Eu prefiro-o por ser o mês em que as cores adquirem um colorido mais bonito.



sábado, 2 de outubro de 2010

Exposição



A sinalética encontrei-a no CCB (Lisboa). Para ver mais terá que ser percorrida "A culpa não é minha". E vale a pena a caminhada!

Henriqueta e Nicolau


A Henriqueta e o Nicolau já têm forma. Agora, falta dar-lhes vida.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Confeitaria Nacional




Hoje passei pela Confeitaria Nacional (Lisboa). Foi dificil resistir a tantas doces tentações.

Marionetas


Diz o ditado que «o desejo ardente deve ser acompanhado de uma vontade firme». Hoje vou dar início a um novo projecto muito desejado: a criação de dois novos personagens, que se irão juntar a outros bonecos que fui criando. Espero puder brevemente trazer aqui imagens dos resultados.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Feira das Mercês (cont.)


Cada um leva um exemplar daqueles barros tão úteis como expressivos. Há quem de lá traga verdadeiras colecções. Qual de nós o não teria feito já também?
Este género de louça é evocador, pela forma e pela graça, como as flores o são também pela vida e pelo perfume.
Das viagens, às vezes, nada mais resta do que isso. Quem passa por Barcelos, por Chaves, por Tondela, por Bisalhães, pelas Caldas ou por Estremoz, nunca deixa de trazer consigo uma peça, ainda que bem pequenina, da louça que por lá tenha visto. Atracção de quem viaja e prazer de quem dela se serve.
Foi por isso que a nossa Infanta D. Isabel, casada com D. Carlos V, nunca dispensava da sua mesa os encantadores pucarinhos de barro que se dizia serem de Montemor.
Aparte outro sector da feira, talvez mais rendoso e fundamental, à louça, ao leitão e às maçãs reinetas, cabem as honras plásticas daquele ajuntamento vivo que é a Feira das Mercês.
Mas não é tudo. O amor tem naquele lugar papel importante e privilegiado na história da ternura popular. É nas Mercês que existe o famoso Muro do Derrete, parada onde se fazem verdadeiros torneios amorosos da região. Rapariga casadoira vai postar-se ali, fresca e vistosa, girando de um lado para o outro, como fogaça em arraiais em arraiais de província. Há sempre quem olhe, há sempre quem goste e há sempre quem queira. E por isso raro é que dali não saia casório certo.
O muro não é apenas um símbolo literário dos folcloristas; existe, não de carne e osso, como se diria das cachopas que o embelezam, mas de pedra e cal, no períbolo da capelinha. No seu parapeito lá estão as moçoilas, rubras de entusiasmo e ansiosas pela fala dos seus conversados, porque dela depende, afinal, a última palavra do seu destino.
Em roda, a feira continua; e, porque o entardecer se aproxima, o Sol doira mais a fronde dos pinheiros e alonga para o Nascente a sombra do arvoredo. São horas de retirada. Enchem-se, de novo, os caminhos daquele povoléu exausto que apressadamente segue em conquista dum lugarzinho no comboio, lá ao fundo, na estação das Mercês, prestes a regressar à cidade.
Em pouco tempo a encosta fica vazia.
A sombra desce mais, atinge o solo, amacia-o e confunde-o com o silêncio e tudo esquece no dia seguinte. Apenas os medronheiros do caminho, vivos, rutilantes como gotas de coral, nos lembram o sorriso fresco e sadio com que as cachopas do alto do famoso muro marcam a nota mais bela e expressiva da tradicional feira das Mercês.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Para a Daisy


Daisy, este post é dedicado a ti. Bjos

Feira das Mercês


No post anterior, quando referi o autor Armando Lucena reportava-me, em concreto, a um texto cujo título é A Feira das Mercês, a «tradicional» feira das Mercês (que não aquela a que aludi), onde fui encontrar referências preciosas à loiça de olaria produzida e vendida na época, e que passo a transcrever na íntegra. Desfrutem.

Muitas vezes, ainda há calor naqueles últimos dias de Outubro, dourado e transparente, de atmosfera límpida, cristalina e suave que nos prende com infinito prazer às doçuras da Natureza. Os rigores do estio deixaram-nos abatidos e com essa fadiga muito deve ter perdido o nosso culto pelo ar livre. De modo que bastante grato é à nossa sensibilidade o primeiro ensejo que nos leva ao campo para ali gozarmos a paisagem e a temperatura amena da quadra outoniça do ano.
Logo de manhã, mal o sol desponta no azul do céu, começa a enorme romagem de forasteiros, cruzando os caminhos e veredas em direcção às Mercês, linda povoação dispersa por uma encosta acima, fronteiriça à serra de Sintra, e onde, desde longa data, se realiza anualmente a tradicional feira das Mercês.
O lugar é, por si, convidativo e pitoresco e em tudo propício à reunião do povo que daquelas redondezas ali acode para folgar e fazer algumas transacções de frutas, hortaliças, gado miúdo, louçaria barata e característica da região, etc., constituem, por assim dizer, a justificação daquele pequeno comércio que, apesar disso, muita gente nele se vê interessada.
Mas deixemos o fundo económico da questão, com seus lucros ou proveito especiais, e olhemos o acto pelo lado panorâmico, pelo sabor regional que nos oferece todo aquele divertido aglomerado, onde há gente de todas as categorias, de todas as idades e lugares.
Da estação do caminho de ferro, lá acima, ao alto da encosta, move-se a grande massa de gente, contornando os acidentes do terreno, fértil e muito variado de vegetação. Há em todos, naquela subida custosa e ainda bastante longa, um arfar ansioso de quem luta com a ladeira. O final vem, felizmente, perto e sólidas compensações esperam o feirante ou simples romeiro, que vai aguçando o apetite para a saborosa petisqueira, devorada à porta das barracas de lona ou à sombra dos plátanos gigantescos o planalto onde a romaria se realiza.
A paisagem é um deslumbramento de frescura sob a poeira doirado do sol, já nessa altura a pino, sobre a cabeça dos feirantes. Alinham-se as barracas de pano, improvisadas de véspera, com panos toscos de costaneiras velhas no interior, que o povinho toma de assalto para que aquela refeição sem fórmulas, primitivas, pagã, quási bárbara, mesmo. Para muitos, o espectáculo termina ali e talvez não tenha começado mais longe. O «prato do dia», se assim podemos dizer, é o belo leitão assado, que naquela manhã se imolou expressamente para repasto dos forasteiros. Por pertencer à tradição, ou porque naquela época outro petisco melhor se não arranja, o bacorozinho assado no espeto é, na opinião daquela gente, uma delícia incomparável que ninguém dispensa naqueles excepcionais dias de festa.
O dia vai correndo num rumor confuso de vozes e de som das cornetas de barro, enquanto a marcha do Sol, curva e vagarosa, nos oferece novos panoramas pelo vale abaixo, até Rio de Mouro, naquele momento vazio e silencioso pela debandada do seu povo, agora a contas com o Diónisos das redondezas, discutindo a vantagem e a aplicação das uvas. Os postos de beberagem são numerosos, como é de supor; um barril ajeitado sobre duas cruzetas de Santo André, duas tábuas de pinho à guisa de banco e um canjirão vidrado das fábricas do Sobreiro quanto basta àquelas locandas de improviso. Próximo uma frigideira de barro chia, sobre o fogo, com o ruído particular das frituras, aliciando o paladar dos mais enfastiados.
- Cá está o rico leitão assado, meus senhores!
E ninguém lhe resiste.
Só depois se trata de «enfeitar».
As louças abundam: a de esmalte, a de folha, a de barro, principalmente. Filas completas cheias de potes, bilhas, moringues, canjirões a almofias, brilhando ao sol, com seu vidrado amarelo, castanho ou verde. Formas clássicas das olarias vizinhas de Mafra, felizmente, por enquanto puras de expressão, castiças de forma, atraentes pela graça ingénua que é a maior virtude dos seus oleiros. Já um dia as quiseram «modernizar», perverter com certos conselhos de indústria alheia; mas alguma glória nos cabe de termos conseguido evitar tamanha tristeza. Fomos ouvidos com muita inteligência e ponderação, e assim podemos ainda admirar-lhe os antigos moldes regionais que, de longa data, foram característicos das velhas rodas do Sobreiro, da Achada, dos Salgados e de muitas outras, daquilo a que poderíamos, com justa razão, chamar o Bairro Cerâmico do concelho de Mafra.

(amanhã será colocado o restante texto)

domingo, 5 de setembro de 2010

Mercado das Mercês


A curiosidade de visitar o mercado (ao ar livre) da Tapada das Mercês durava há já alguns meses. Satisfiz esse desejo ontem.
O lugar aprazível, convidativo e pitoresco descrito por Armando Lucena (in Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses) deixou de existir; os produtos transaccionados são agora outros; mas, ainda assim, valeu a pena o cumprimento desta espécie de culto que tanto defendo: a compra do que é (ou ainda vai sendo) regional e, não raras vezes, cultivado pelos próprios vendedores.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Todos diferentes / Todos iguais



Efeitos da globalização.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Reconhecidamente



Os gestos que não fazemos à espera de que os outros os façam por nós. E assim perdemos a vida, que é uma expressão permanente que não pode ser adiada.
O gesto de agradecimento não foi esquecido, e nem foi adiado. Verbalizei-o várias vezes até.
Mas apetece-me tanto ilustrar o meu agradecimento.
(Ao MD, DGS e GMR)

Um doce para quem adivinhar o que é...


Voltas e mais voltas num abraço fechado.

31 de Agosto de 2010: descanso da guerreira


«Conhecimento: o seu sabor inicial é amargo, mas o final é mais doce que o mel».

(Provérbio tradicional jordano)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

Fééééérias!!!!



Férias, férias, férias. Anseio por férias com cheiro a mar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Percorrer a Rua Augusta (Lisboa) de nariz no ar...





Um exercício que experimentei fazer durante poucos minutos, mas os suficientes para ficar de olhar irremediavelmente preso a pormenores que, aqui e ali, nesta e noutra fachada, nos transportam para pequenos poemas visuais.