terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal





«Hoje, falar do Natal, época que muitos pretendem esconjurar mas que todos convocam, é falar de consumos. De muitos consumos. Poucos têm interesse em saber que a primeira referência ao Natal Domini remonta ao ano 336, do calendário juliano e que tomou o lugar das festas do solstício de Inverno, desde o tempo do Imperador Aureliano, que eram festas consagradas ao Natal Solis Invicti, festa mitríaca do "renascimento do Sol", também chamada Saturnais. Também já ninguém quer saber da decisão do papa Gregório que no ano de 354 fixou o dia 25 de Dezembro como o dia de nascimento de Cristo porque, até essa época, não se sabia a data exacta. Foi esse papa que entendeu contrapor às Saturnais a festa cristã do Natale de Cristo, o verdadeiro "Sol da Justiça". Durante quase duas dezenas de séculos, consoante as épocas e as ciscunstâncias, o Natal tem sido celebrado de forma mais religiosa ou profana, com fulgor ou indiferença, até à segunda metade do século XIX, época durante a qual, pela primeira vez, o Natal avança e entra para os hábitos de consumo, dos quais nunca mais voltou a sair. Quase todos os sinais da celebração pagã passaram para a ritualidade da festa religiosa e, como estamos na época, aí vão algumas avulsas vulgaridades que, de uma forma ou outra, são mencionadas todos os anos. O renascimento da luz nas trevas - lembrança do Sol, nascimento do Salvador -, era simbolizado pelas velas que se punham à porta das casas durante as Saturnais, e hoje substituídas pelas lâmpadas que iluminam casas e ruas. O tronco de Natal que ardia na noite de 24 de Dezembro, para as pessoas se poderem aquecer, lembrando o Sol e o seu calor, transformou-se num bolo de chocolate que acalma gulosos e agasalha o estômago. As decorações das casas romanas e edifícios públicos, com árvores, ramagens, azevinhos e coroas, têm continuação no afã com que nos nossos dias se compram pinheiros, se enfeitam com plásticos em forma de bolas, de coroas ou lá do que for, todos os cantos das nossas casas. Os nossos estimados governantes enfeitam a praça pública com o mesmo entusiasmo e interesse com que os senadores romanos mandavam enfeitar as praças deles. O azevinho, símbolo da fertilidade nos países escandinavos, é aceite pela cristandade como símbolo do sangue de Cristo que a cor das bagas invoca. As maçãs, as bolas de papel e todos os outros enfeites característicos da quadra são difundidos a partir da Inglaterra e é aí que se inventam os primeiros cartões de boas-festas que são divulgados pelos correios que tinham acabado de nascer. Santa Claus, São Nicolau ou Pai Natal, o legendário distribuidor de presentes, voando no céu sentado num trenó puxado por renas, afadigando-se a enfiá-las pela chaminé, é uma figura holandesa do século XVII, que só no séulo XIX se tornou conhecida do resto do mundo. O Pai Natal de vermelho, debruado a branco, foi criado em 1885 por Louis Prang, tipógrafo de Boston. Anos mais tarde foi aprefeiçoado por Haddon Sundblom, desenhador de publicidade da Coca-Cola, nos anos trinta, que produziu a imagem bem humorada do homenzinho de barbas brancas. Se alguma dúvida tivéssemos sobre a mundialização dos símbolos, aqui temos um exemplo da sua rápida transferência e adopção na nossa sociedade.»

In O Grande Livro de Natal

1 comentário:

  1. Já agora, a título de complemento, uma curiosidade.
    Dizia um oficial do exército sueco do século XVIII que os Koryak, povo da Sibéria, faziam um caldo do cogumelo frades-de-sapo (Amanita muscaria), alucinogéneo e venenoso, em ocasiões especiais. E que quem não tinha possibilidades de obter os cogumelos, esperava que os ricos saíssem de casa para urinar, recolhiam a sua urina e bebiam-na, usufruindo também das propriedades alucinogéneas do frades-de-sapo.
    As renas dos Koryak também pareciam ingerir os cogumelos secos ou lamber a urina de quem os tivesse comido.
    A mim parece-me mais provável que os homens bebessem a urina das renas (e não dos vizinhos!!!) para aproveitar as propriedades alucinogéneas do cogumelo sem terem de ingerir o próprio cogumelo, que é altamente venenoso, mas isso já sou eu a divagar…
    Seja como for, os seus xamãs bebiam o caldo para entrar em transe e conseguir “voar” em espírito até quem precisasse deles e entrar nas casas pelo telhado.
    Segundo uma teoria, esses “voos” estarão na origem da imagem do Pai Natal a voar pelos céus no seu trenó, puxado pelas suas renas, e a entrar pelas chaminés; e as vestes vermelhas e brancas serão uma alusão ao cogumelo frades-de-sapo, que é vermelho com pintas brancas.

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